Timbuktu - Uma história interessante
Lendo o livro “Como escrever bem”, escrito por William Zinsser (2017)[1], um trecho deixou-me curioso. Nessa parte, o autor fazia menção a um artigo intitulado “The News From Timbuktu”[2] [Notícias de Timbuktu], publicado pela Condé Nast Traveller, uma revista sobre viagens[3]. Transcrevo aqui este trecho:
O que mais me impressionou quando cheguei a Timbuktu foi que
as ruas do lugar eram todas de terra. Entendi subitamente a diferença entre a
areia e o barro. Toda cidade começa com ruas barrentas que são pavimentadas à
medida que seus habitantes prosperam e subjugam o ambiente. A terra representa
uma derrota. Uma cidade com ruas de terra é uma cidade à margem.
Era justamente por isso que eu estava ali: Timbuktu é o
destino extremo para quem procura o limite. Da meia dúzia de lugares que sempre
excitaram os viajantes à simples menção de seus nomes — Bali e Taiti, Samarkand
e Fez, Mombaça e Macau —, nenhum se iguala a Timbuktu no que se refere à
sensação de distância e isolamento que ele transmite. Fiquei surpreso com a
quantidade de pessoas que, ao saberem de minha viagem, diziam achar até então
que Timbuktu não era um lugar de verdade, ou que, caso fosse de verdade, não
faziam a menor ideia de onde se localizava no mapa-múndi. Elas conheciam aquele
nome — o sinônimo mais expressivo para algo quase inatingível, um presente dos
deuses para os letristas de canções em busca de uma rima em "u" e uma
metáfora para exprimir o quão distante um jovem apaixonado seria capaz de ir
para conquistar a sua inconquistável garota. Mas. como lugar real, Timbuktu
era, certamente, um daqueles reinos africanos "há muito tempo
perdidos", como as Minas do Rei Salomão, que se revelaram inexistentes
quando os exploradores da época vitoriana partiram em sua busca.
O reino perdido de Timbuktu. porém, foi, sim, encontrado,
embora os homens que finalmente conseguiram fazê-lo depois de tantas provações
— o escocês Gordon Laing em 1826 e o francês René Caillié em 1828 — devam ter
se sentido cruelmente ridicularizados. A lendária cidade com 100 mil habitantes
descrita pelo viajante Leo Africanus no século XVI — um centro de estudos com
20 mil alunos e 180 escolas do Alcorão — não passava de uma aldeia desolada com
algumas poucas edificações de barro, cuja glória e população havia muito tinham
desaparecido, e que sobrevivia apenas por causa de sua localização geográfica
única, no cruzamento de duas importantes rotas de caravanas de camelos pelo
Saara. Muito do que era comercializado na África, especialmente o sal vindo do norte
e o ouro vindo do sul, o era em Timbuktu.
Viajei a Timbuktu justamente para observar a chegada de uma
dessas caravanas. Fui uma das seis pessoas espertas ou tolas o bastante — ainda
não sabíamos bem — para comprar um tour de duas semanas anunciado na edição
dominical do New York Times por uma pequena agência de viagens de origem
francesa especializada na África ocidental (Timbuktu fica no Mali, antigo Sudão
francês). O escritório da agência fica em Nova York, e fui até lá na
segunda-feira de manhã bem cedo para chegar antes de todo mundo. Fiz as perguntas
de praxe, ouvi as respostas de praxe — vacina para febre amarela, vacina para
cólera, comprimidos contra malária, não beber a água local — e recebi um
folheto.
"Esta é a sua chance de participar de uma extravagância
única na vida — a anual caravana do sal Azalai para Timbuktu!", diziam as
primeiras linhas do folheto. "Imagine isto: centenas de camelos
transportando um carregamento de sal precioso ('ouro branco' para os nativos do
isolado oeste africano) fazem sua entrada triunfal em Timbuktu, uma antiga e
mística localidade, meio deserto, meio cidade, com cerca de 7 mil habitantes.
Os nômades vestidos de trajes multicoloridos que conduzem a caravana
atravessaram 1.600 quilômetros ao longo do Saara para comemorar o fim de sua
jornada com festas de rua e tradicionais danças tribais. Passe uma noite em uma
tenda no meio do deserto tendo um chefe tribal como anfitrião."
Bem, esse é o meu tipo de viagem, ainda que não necessariamente
meu tipo de prosa, e coincidiu que também é o tipo de viagem que agradava à
minha mulher e a outras quatro pessoas. Quanto à faixa etária, o grupo ia da
meia-idade ao Medicare [*] Cinco de nós éramos do centro de
Manhattan, e havia uma viúva de Maryland — todos havia muitos anos habituados a
fazer viagens para lugares limítrofes. Nomes como Veneza e Versalhes não eram
dos que vinham à tona nos relatos sobre nossas viagens anteriores. Nem mesmo Marrakech,
Luxor ou Chiang Mai. Nossa conversa era sobre Butão, Bornéu, Tibete, lêmen ou
Moluccas. Agora — graças a Alá! —, estávamos em Timbuktu. E nossa caravana de
camelos estava prestes a chegar.
Para chegar a Timbuktu tomamos um avião em Nova York rumo a
Abidjan, capital da Costa do Marfim, e de lá um voo para Bamako, capital do
Mali, país vizinho, situado ao norte. Ao contrário da verdejante Costa do
Marfim, o Mali é um país seco, com sua metade sul banhada principalmente pelo
rio Níger e a metade norte formada quase que em sua totalidade por um deserto;
Timbuktu é, literalmente, a última parada para os viajantes que atravessam o
Saara em direção ao norte, ou a primeira parada para os que estão indo para o
sul — um ponto muito cobiçado depois de semanas de calor e sede.
Ninguém da nossa turma conhecia muita coisa sobre o Mali nem
sabia o que esperar do país — nossos pensamentos estavam voltados para o
encontro com a caravana do sal em Timbuktu, não para o território que tínhamos
de atravessar até chegar ali. O que não esperávamos é que seriamos
instantaneamente conquistados pelo país. O Mali era um mergulho em um universo
de cores: pessoas bonitas trajando tecidos com um design inebriante, mercados
efervescentes com frutas e verduras, crianças cujos sorrisos constituíam um
milagre permanente. Desesperadamente pobre, o Mali era um país rico em pessoas.
A cidade de Bamako e suas ruas arborizadas nos deixaram encantados com sua
energia e segurança.
Na manhã seguinte, bem cedo, saímos para uma viagem de dez
horas em uma van que já havia tido os seus melhores dias — embora não muito
melhores —, para chegar à cidade sagrada de Djenné, um centro medieval de
comércio e de ensino islâmico no Níger, anterior a Timbuktu e que rivalizava em
brilho com esta última. Hoje em dia, só se consegue chegar a Djenné com uma
pequena balsa. Enquanto sacolejávamos por diversas estradas indescritíveis,
apressados para chegar antes do anoitecer, as torres e as agulhas da sua grande
mesquita de barro, que lembrava um castelo de areia distante, escarneciam de
nós parecendo recuar cada vez mais. Quando finalmente chegamos, a mesquita
ainda lembrava um castelo de areia — uma elegante fortaleza que bem poderia ter
sido construída por crianças. Arquitetonicamente (aprendi mais tarde), ela
tinha um estilo sudanês; durante todos esses incontáveis anos, as crianças, nas
praias, têm construído castelos no estilo sudanês. Descansar um pouco na velha
praça de Djenné ao anoitecer foi um ponto alto da nossa viagem.
Mas os dois dias seguintes não foram menos ricos. O primeiro
foi consumido viajando pela região do Dogon adentro. O Dogon. que fica em um
talude de difícil acesso para forasteiros, é admirado pelos antropólogos pelo
animismo da sua cultura e da sua cosmologia e pelos colecionadores de arte por
suas máscaras e estátuas. As poucas horas que passamos escalando seus vilarejos
e assistindo a uma dança de máscaras nos permitiram um lampejo muito breve de
uma sociedade que não tinha nada de simples. O segundo dia foi consumido em
Mopte. uma cidade de comércio no Níger de que gostamos muito, mas que também
tivemos de deixar rapidamente. Afinal, tínhamos um encontro marcado em Timbuktu
e um avião fretado para nos levar até lá.
O que me deixou mais preocupado quando estive na agência de
viagens foram as coordenadas precisas desse encontro. Perguntei à gerente da
agência como ela podia ter certeza de que a caravana do sal chegaria exatamente
no dia 2 de dezembro; nômades conduzindo camelos não são exatamente o tipo de
gente que acredito trabalhar com uma planilha de horários. Minha esposa, que
não padece desse meu otimismo em relação a forças vitais como camelos e agentes
de viagem, estava convencida, desde o início, de que, ao chegarmos a Timbuktu,
alguém nos diria que a caravana do sal tinha chegado, mas acabara de partir,
ou. mais provavelmente, que não tinha nem dado notícias. A agente de viagem
zombou da minha pergunta.
"Temos um contato muito próximo com a caravana",
disse ela. "Mantemos representantes no deserto. Se veem que a caravana vai
atrasar alguns dias. eles nos avisam, e podemos então alterar o itinerário
dentro do Mali." isso me pareceu sensato — os otimistas conseguem achar
qualquer coisa sensata —, e agora eu estava em um avião não muito maior que o
de Lindbergh, voando para o norte em direção a Timbuktu, sobre uma região tão
inóspita que eu era incapaz de ver o menor sinal de vida lá embaixo. Enquanto
isso, porém, centenas de camelos carregados de sacos de sal avançavam em
direção ao sul para se encontrar comigo. Chefes tribais deveriam, a essa
altura, estar pensando em como me entreter em sua tenda no meio do deserto.
O piloto circulou sobre Timbuktu para nos proporcionar uma
visão aérea geral da cidade que nós, vindos de tão longe, queríamos visitar. As
inúmeras construções de barro espalhadas pareciam abandonadas havia muito
tempo, tão mortas quanto o forte Zinderneuf no final de Beau Geste;
certamente não havia nenhum ser vivo ali. Em seu movimento de expansão, que
gerou o cinturão seco que atravessa a África Central conhecido como Sahel, o
Saara havia desde muito tempo deixado Timbuktu para trás, totalmente abandonada.
Senti um calafrio; eu não queria ser deixado em um lugar tão abandonado como
aquele.
No aeroporto, encontramos com o nosso guia local, um tuaregue
chamado Mohammed Ali. Para um viajante animado, ele era como um sinal
reconfortante — se alguém pode ser considerado dono dessa região do Saara, são
os tuaregues, uma raça de berberes orgulhosos que se retirou para o deserto e
fez deste uma espécie de reserva, não se submetendo, assim, nem aos árabes nem
aos colonizadores franceses que depois ocuparam o norte da África. Mohammed
Ali, que vestia a tradicional túnica azul dos homens tuaregues, tinha um rosto
escuro e inteligente, um tanto árabe nos traços angulosos, e se movia com uma
segurança que era evidentemente parte da sua personalidade. Quando adolescente,
ele participou com o pai de uma haj [peregrinação] a Meca (muitos tuaregues
acabaram se convertendo ao islamismo) e ficou por sete anos na Arábia Saudita e
no Egito estudando inglês, francês e árabe. Os tuaregues têm também a sua
própria língua, com um alfabeto bastante complexo, chamado tamashek.
Mohammed Ali disse que precisaria, primeiro, levar-nos ao
posto policial para que nossos passaportes fossem averiguados. Vi filmes demais
para conseguir me sentir tranquilo nesse tipo de situação, e, quando entramos
em uma sala que mais parecia um calabouço para sermos interrogados por dois
policiais armados, não muito longe de uma cela de prisão onde podíamos ver um
homem e um menino dormindo, ocorreu-me mais um flashback, dessa vez de As
quatro penas brancas e a cena dos soldados britânicos aprisionados em
Omdurman. Meu peito continuava oprimido quando saímos dali e Mohammed Ali nos
levou para conhecer a cidade miserável, mostrando-nos diligentemente os seus
"pontos de interesse": a Grande Mesquita, o mercado e três casas
totalmente dilapidadas com placas indicando que nelas haviam morado Laing,
Cailiié e o explorador alemão Heinrich Barth. Não vimos mais nenhum turista no
local.
No Hotel Azalai, onde parecíamos ser os únicos hospedes,
perguntamos a Mohammed Ali quantos turistas estavam em Timbuktu para encontrar
com a caravana do sal.
“Seis”, disse ele. "Vocês seis."
“Mas...”; Alguma coisa dentro de mim me impediu de concluir a
frase. Optei por outra abordagem. "O que quer dizer a palavra 'azalai'?
Por que a caravana é chamada de Caravana do Sal Azalai?"
"Era a palavra usada pelos franceses", disse ele,
"quando organizavam a caravana e todos os camelos faziam a viagem juntos
uma vez por ano, sempre no começo de dezembro."
"E como fazem agora?", várias vozes perguntaram.
"Bem, a partir do momento em que o Mali ficou
independente, eles decidiram deixar os comerciantes trazerem as suas caravanas
a Timbuktu quando bem entendessem."
O Mali conquistou a independência em 1960. Estávamos em
Timbuktu, portanto, para acompanhar um acontecimento que não ocorria havia 27
anos.
Minha mulher, como os demais, não ficou surpresa. Recebemos a
notícia com tranquilidade, como velhos e experimentados viajantes que botavam
fé em que, de um modo ou de outro, acabariam encontrando a sua caravana de
camelos. Nossa reação foi, principalmente, de estupefação diante do descarado
descumprimento dos cânones da propaganda não enganosa. Mohammed Ali não tinha
conhecimento das vistosas promessas juradas pelo folheto da agência. Sabia
apenas que tinha sido contratado para nos levar ao encontro da caravana do sal,
e nos disse que na manhã seguinte sairíamos em busca de uma e passaríamos a
noite no Saara. O começo de dezembro, disse ele, é o momento em que as
caravanas começam a chegar. E não fez menção alguma à tenda de algum chefe de
tribo.
Na manhã seguinte, minha mulher — que é a voz da razão no seu
limite máximo — disse que não iria ao Saara se não fôssemos em dois veículos.
Fiquei feliz, por isso, ao ver duas Land Rovers à nossa espera quando saímos do
hotel. Em uma delas, um menino enchia um dos pneus dianteiros com uma bomba
para pneu de bicicleta. Quatro de nós nos apertamos no banco traseiro de uma
das Land Rovers; Mohammed sentou no da frente, ao lado do motorista. A segunda
Land Rover levaria os outros dois membros do nosso grupo e dois meninos
chamados de "aprendizes". Ninguém nos disse o que eles estavam
aprendendo.
Partimos diretamente para o Saara. O deserto era uma
superfície marrom ilimitada sem nenhum tipo de trilha ou caminho; a cidade
maiorzinha mais próxima era Algiers. Esse foi o momento em que mais me senti no
limite do nada. Uma voz dentro de mim disse bem baixo: "Isto é uma
loucura. Por que você está fazendo isto?". Mas eu sabia por quê; eu estava
em uma busca que remontava aos meus primeiros encontros com os livros dos
"excêntricos do deserto" britânicos — uma gente solitária como Charles
Doughty, sir Richard Burton. T. E. Lawrence e Wilfred Thesiger, que viveu entre
os beduínos. Eu sempre me perguntara como seria levar uma vida austera como
aquela. Que poderes ela tinha sobre aqueles ingleses obsessivos?
Agora eu começava a entender. Enquanto avançávamos pelo
deserto, vez por outra Mohammed Ali orientava o motorista: um pouco mais para a
direita, um pouco mais para a esquerda. Perguntamos como é que ele sabia para
onde estava indo. Ele disse que se guiava pelas dunas. As dunas, no entanto,
eram todas muito parecidas. Perguntamos quanto tempo faltava para encontrarmos
uma caravana do sal. Mohammed Ali disse que esperava que seriam mais três ou
quatro horas. Continuamos avançando. Para os meus olhos, sempre habituados a
ver objetos, não havia quase nada para olhar. Mas, depois de algum tempo, esse
"quase nada" se tornou, ele próprio, um objeto — o próprio sentido do
deserto. Tentei incorporar esse fato ao meu metabolismo. E isso me levou a uma
resignação reconfortante, a tal ponto que esqueci totalmente por que tínhamos
chegado até ali.
Subitamente, o motorista fez um giro à esquerda e parou o
veículo. "Camelos", disse ele. Apertei os meus olhos urbanos, mas não
consegui enxergar nada. Aos poucos, ela surgiu no meu foco, bem ao longe: uma
caravana com quarenta camelos avançando com um passo majestoso rumo a Timbuktu,
levando, como fazem as caravanas há mil anos, o sal extraído das minas de
Traoudenni, localizada vinte dias ao norte. Avançamos, colocando-nos a uma
distância de cerca de cem metros da caravana. Não poderia ser menos do que isso
porque, como explicou Mohammed Ali, os camelos são criaturas nervosas, que
entram em pânico facilmente diante de qualquer coisa "estranha". (Nós
éramos, inegavelmente, estranhos.) Ele contou que os camelos sempre chegavam a
Timbuktu para descarregar o sal tarde da noite, quando a cidade está vazia. Era
o que havia a ser dito sobre a "entrada triunfarl.
Era uma imagem arrebatadora, bem mais dramática do que seria
uma marcha bem organizada. A solidão daquela caravana era a solidão de todas as
caravanas que já atravessaram, desde sempre, o Saara. Os camelos eram amarrados
uns aos outros e pareciam avançar em uníssono, com tanta precisão quanto as
Rockettes [**] com seu ritmo ondulante. Cada camelo trazia de cada
lado dois blocos de sal amarrados com cordas. O sal parecia mármore branco
sujo. Os blocos (tal como eu pude medir depois no mercado em Timbuktu) têm 1,06
metro de comprimento, 45,7 centímetros de altura e 1,9 centímetro de espessura
— o peso e o tamanho máximos, ao que parece, que um camelo pode suportar.
Sentamos na areia e ficamos observando a caravana, até que o último camelo
desaparecesse por trás de uma duna.
Era meio-dia e o sol ardia de uma forma cruel. Voltamos para
nossas Land Rovers e avançamos velozmente ao longo do deserto até que Mohammed
Ali encontrou uma árvore que projetava uma sombra grande o bastante para
abrigar cinco nova-iorquinos e uma viúva de Maryland, e ali ficamos até perto
das quatro horas da tarde fazendo um piquenique, observando a paisagem
inteirinha branca, cochilando um pouco, mudando nossa manta de lugar conforme a
sombra se movia com o sol. Os dois motoristas passaram o tempo todo da sesta
fuçando no motor de uma das Land Rovers, ao que parece para desmontá-lo. Um
nômade apareceu não sei de onde e parou para nos perguntar se tínhamos um pouco
de quinino. Outro nômade apareceu também não sei de onde e parou para conversar
conosco por algum tempo. Depois, vimos dois homens avançando pelo deserto em
nossa direção e atrás deles — seria a nossa primeira miragem? — havia outra
caravana de sal, desta vez com cinquenta camelos, com seus contornos visíveis
contra o céu. Tendo-nos visto, só Deus sabe como, de tão longe, os dois homens
tinham saído da caravana para nos fazer uma visita. Um deles era um velho, que
ria bastante. Sentaram-se ao lado de Mohammed Ali para saber as últimas
novidades de Timbuktu.
Quatro horas se passaram sem que percebêssemos, como se
tivéssemos dormido em uma região com outro fuso horário, o do Saara, até que,
no fim da tarde, quando o calor do sol começava a arrefecer, voltamos para as
Land Rovers, que, para minha surpresa, ainda funcionavam, e partimos para
avançar pelo deserto em direção ao que Mohammed Ali chamou de nosso
"acampamento". Imaginei, se não uma tenda de chefe de tribo, ao menos
uma tenda qualquer — alguma coisa que tivesse a aparência de um acampamento.
Finalmente paramos em um local que se assemelhava, espantosamente, ao que
procuráramos ao longo de todo o dia. Nele havia, porém, uma pequena árvore.
Algumas mulheres beduínas estavam agrupadas embaixo dela — vestidas de preto,
com o rosto velado — e Mohammed Ali deixou-nos ali, no deserto, bem perto
delas.
As mulheres se juntaram mais e recuaram um pouco à nossa
chegada — brancos alienígenas caídos abruptamente no seu habitat. Estavam tão
coladas umas às outras que pareciam uma barreira. Evidentemente, Mohammed Ali
resolvera parar ao primeiro sinal de "cor local" que conseguira
encontrar para os seus turistas, esperando que nos virássemos sozinhos a partir
dali. A única coisa a fazer seria nos sentarmos e tentar parecer amistosos. Mas
tínhamos total consciência de sermos intrusos, e provavelmente elas sentiam o
nosso desconforto. Levou algum tempo até que aquela barreira preta se desfez e
mostrou serem na verdade quatro mulheres, três crianças e dois bebês nus.
Mohammed tinha se afastado. Parecia não querer falar com beduínos; talvez, como
tuaregue, os visse como inferiores.
Mas foram as beduínas, justamente, que tiveram a elegância de
nos deixar à vontade. Depois de retirar o véu do rosto e expor um sorriso de
estrela de cinema — dentes brancos e olhos negros brilhantes em um rosto lindo
—, uma das mulheres remexeu nos seus pertences e retirou dali uma manta e uma
esteira, estendendo-as para que pudéssemos nos sentar. Lembrei-me, então, de
que, segundo os livros, a figura do intruso não existe no deserto; todo mundo
que aparece estava sendo, de alguma forma, aguardado. Logo depois, dois
beduínos surgiram do deserto, completando a unidade familiar, que, então vimos,
era composta de dois homens, duas esposas para cada homem e seus filhos. O
marido mais velho, que tinha um rosto belo e forte, cumprimentou as suas duas
mulheres com um tapinha delicado na cabeça de cada uma, como uma espécie de
bênção, e se sentou perto de mim. Uma das mulheres serviu o jantar para ele —
uma tigela com painço. Ele imediatamente ofereceu a tigela para mim. Embora eu
tenha declinado, foi uma oferta que jamais esquecerei. Permanecemos em um
silêncio amistoso enquanto ele comia. As crianças se aproximaram para fazer
companhia. O sol já tinha se posto e a lua cheia aparecera para tomar conta do
Saara.
Enquanto isso, nossos motoristas tinham estendido algumas
mantas perto das duas Land Rovers e faziam uma fogueira com a madeira do
deserto. Nós então nos agrupamos, com nossas próprias mantas, observamos o
surgimento das estrelas no céu do deserto, jantamos uma espécie de frango e nos
preparamos para dormir. Cada um dispunha de equipamento móvel próprio para
fazer suas necessidades. Alertados de que as noites no Saara são frias,
tínhamos trazido nossos agasalhos também. Depois de vestir o meu, enrolei-me em
uma manta que logo amenizou a rigidez do chão do deserto e adormeci envolvido
por uma quietude imensa. Uma hora depois, fui acordado por uma agitação
igualmente imensa — nossa família beduína tinha trazido as suas cabras e
camelos para passar a noite ali. E logo tudo silenciou novamente.
Na manhã seguinte, observei algumas pegadas na areia perto da
minha manta. Mohammed Ali disse que um chacal havia aparecido durante a noite
para pegar os restos do nosso jantar — os quais, pelo que eu me lembrava,
deviam ser muito poucos. Mas eu não escutara nada. Estava ocupado demais
sonhando que era Lawrence da Arábia.
[*] O autor se refere ao sistema de saúde pública dos Estados
Unidos voltado para pessoas com 65 anos ou mais. (N.T.)
[**] Grupo tradicional de dança tipicamente americana, geralmente com dezenas de bailarinas. (N.T.)
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Crédito das imagens
Abidjan - https://afriquemagazine.com/
Aldeia Taoudeni e Bacia de Sal - https://heroesofadventure.com/
Algiers - https://www.expedia.com.br/
Bamako - https://br.depositphotos.com/
Caravana de Sal - https://sahara-overland.com/
Djenné-a grande mesquita - https://www.pandotrip.com/
Dogon-Dançarinos - https://www.istockphoto.com/
Mulher beduína vestindo negro - https://br.depositphotos.com/
Pessoas do Mali - https://empowermali.org/
Tuaregue - https://margaridasantoslopes.com/
[1] Zinsser, W. (2017). Como
escrever bem: O clássico manual americano de escrita jornalística e de não
ficção. Tradução: Bernardo Ajzenberg. São Paulo, SP, Brasil: Três Estrelas.
[2] Zinsser, W. (oct. 1988).
The News From Timbuktu. London, UK: Condé Nast Traveller.
[3] Para saber informações
sobre a revista Condé Nast Traveller, sugiro a leitura do artigo da Wikipedia:
<https://en.wikipedia.org/wiki/Cond%C3%A9_Nast_Traveller>,
consultado em 04/2023.










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